Certa vez,
um grande artista foi escolhido para pintar um quadro a óleo, destinado
a uma igreja de Roma.
A tela teria por tema a vida de Jesus.
O artista, que há muito vinha esperando aquela oportunidade, imensamente
feliz e cheio de entusiasmo, atirou-se ao trabalho ardorosamente.
Assim, durante meses a fio, e sem
descanso, dedicou-se o pintor à execução do quadro. Quando, porém, faltava
pouco para terminar, foi forçado a parar.
É que faltavam dois modelos importantíssimos,
justamente aqueles que deveriam representar o Menino Jesus e Judas Iscariote.
Pôs-se então à procura dos modelos.
Começou a busca em sua própria cidade. Percorreu todas as ruas, procurou
em todos os bairros. Andou muito, viajou muito.
Examinou linha por linha centenas de rostos
de meninos e de homens, sem que nenhum deles apresentasse as características
que exigia para os personagens de seu quadro.
Foi então que retornando à sua terra natal,
percorrendo novamente um velho bairro da cidade, viu um pequeno de doze
anos, cujo semblante, de rara beleza e extraordinária meiguice, era justamente
o que procurava.

O pintor exultou
de alegria. Enfim, poderia continuar seu trabalho.
De imediato falou aos pais do menino e
pôs mãos à obra.

Durante dias,
e dias o garoto pousou pacientemente até que seus lindos traços fisionômicos
passaram para a tela do pintor.
Quando
o menino se foi, o artista comentou:
- A beleza e a candura de sua alma estão refletidas em seu rosto.
O pintor começou a fazer novas buscas,
agora na esperança de encontrar quem lhe servisse de modelo para a imagem
de Judas.
Novas caminhadas...novas indagações...novos
semblantes em desfile...Mas ninguém satisfazia as exigências do artista.
A bela obra paralisada, aguardava o seu
último personagem, para ser exposta aos olhares do público.
E tudo indicava que tão cedo não seria
terminada.
De fato os dias foram se escoando, os meses sucedendo-se um ao outro,
os anos também se passaram e o quadro continuava no mesmo.
O pintor já desanimava, quando um
dia, ao passar por um bar, pouco recomendável, viu ao aparecer à porta
um pobre homem esfarrapado e magro, sentado ao balcão. Estava embriagado.
O pintor
aproximou-se e condoído, estremeceu de horror e emoção.
Aquela fisionomia ainda moça, marcada impiedosamente pelo vício, ajustava-se
com precisão à sua tela inacabada!
Encontrara, afinal, o seu Judas Iscariote.
- Venha comigo, que eu cuidarei de
você.
Pôs-se então o artista, dia e noite,
a completar a tela.
E, coisa estranha, à
medida que o trabalho avançava, o modelo pouco a pouco demonstrava desalentadora
tristeza.
O pintor percebia a transformação, mas nada comentava.
Um dia porém, notando que lágrimas
silenciosas deslizavam daqueles olhos encovados, interrompeu o trabalho
e indagou, interessado:
- Meu filho, por que se aflige tanto?
Em que lhe posso ajudar?
Desatando a chorar, o modelo cobriu
o rosto com as mãos.
Depois, passados instantes, olhou
para o pintor e, timidamente, falou:
- Não se lembra de mim? Há muitos
anos, pousei para o seu menino Jesus...